quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Até que o Inferno congele

Prólogo

"Du
bist mein tag und mein nacht, mein Liebe und mein Verachtung, mein Zufriedenheit und mein Elend."

O dia amanheceu cinza e desbotado. As cores se esvaíram por completo de meus olhos. Nenhum assomo de luz, nem mesmo por um instante.
Nada mais tem sabor ou cheiro. Nada, exceto o sabor da minha raiva.
E ela é doce.

Junto os cacos de uma vida partida. Preferia não fazê-lo agora. Os braços ainda doem.
Busco uma razão para continuar, não consigo. Vejo todos aqueles a quem deixei para trás, todas as coisas que não fiz, e o sabor doce em minha boca se acentua. Sinto a dor de meus pensamentos, desejando que ela acabe. Tolo - digo a mim mesmo -, isso nunca acabará. Não até que o Inferno congele.

Olho para o canto do quarto. Nele, vejo um pedaço de minha vida passada, aquela em que pude ser feliz. A dor de meus pensamentos aumenta e o sabor de minha raiva se acentua ainda mais. Um arrepio me corta a espinha. Pela primeira vez penso no que fiz.

Tento levantar, minhas pernas não respondem. Os braços entorpecidos pela dor levantam meu corpo. Vejo um rosto, mas não o reconheço. Ouço meu nome. Essa voz... Eu conheço essa voz. Os olhos percorrem o quarto, mas o rosto se fora, assim como a voz. Estou só novamente.

Tento recordar em que instante no tempo minha vida se desfez, desmanchando-se em pedaços. As lembranças não seguem uma ordem cronológica; há apenas a confusão gerada pelos meus passos em direção à porta. Um passo trôpego, como o de quem ainda está aprendendo a caminhar.

A rua está repleta de pessoas da cidade, mas eu não poderia me sentir mais só se ela estivesse completamente deserta. Há uma profusão de sons, todos inaudíveis. Vozes, carros, todos misturados e servidos aos meus ouvidos de maneira difusa e perdida. Tento levantar meus olhos, tento caminhar.

Sigo pela rua em busca de uma explicação, algo que me diga o porquê de tudo isso. Vejo pedaços dos meus sonhos espalhados pelo chão. A dor agora é insuportável.

Busco um rosto conhecido pela multidão. Meus olhos mal conseguem discernir os tons de cinza que veem. Tento resgatar a lembrança de um rosto, um nome. Ouço apenas o silêncio de minhas lembranças. Nada parece familiar. Olho para o céu, em busca de algo que me diga que ainda estou vivo. Vejo apenas um manto cinza e sem vida.

Uma voz me atravessa a carne e sinto meu sangue congelar. Me viro para olhar, vejo seu rosto. Sua voz penetra minha carne como um prego. Seus olhos invadem meu corpo. Não há um sorriso em meu rosto, apenas um esgar de dor. Sinto vontade de fugir, mas não tenho forças. Olho, e espero.

Sinto uma carícia em meu rosto. Meus olhos procuram pela mão que me acaricia. Um novo arrepio me atravessa a espinha. Não vejo sua mão. Seu rosto está vazio e distante, desfazendo-se no ar. Enfim, ela se foi.

O peso do meu corpo aumenta violentamente. Caio de joelhos e a dor me toma por completo. Choro como nunca havia chorado antes e vejo seu rosto em minha mente. Minha voz luta comigo para poder sair. Grito seu nome em desespero. Em vão tento encontrá-la.

Minhas forças se esvaem em minhas lágrimas. Sinto que não posso mais suportar meu próprio corpo. Deixo que a gravidade cumpra seu papel, lançando-me de encontro ao chão. O torpor invade meus sentidos. Minha visão se turva, tudo escurece. Ouço apenas as batidas de meu coração. Sinto o cheiro de minha culpa, misturado com o sabor de minha raiva.

Busco na memória lembranças do tempo em que fui feliz. Enfim adormeço, sem nem mesmo saber onde estou.